Uma nova tendência entre crianças e adolescentes vem saindo das redes sociais e ocupando espaços públicos em diferentes cidades brasileiras. São os chamados encontros ou campeonatos de “farmar aura”, nos quais os participantes realizam movimentos, poses e pequenas performances para demonstrar presença, estilo, confiança e carisma, quase sempre diante das câmeras de celulares e com a expectativa de que os vídeos circulem nas redes sociais.

A expressão combina a palavra “farmar”, trazida do universo dos jogos eletrônicos e associada ao ato de acumular pontos ou recursos, com a ideia de “aura”, utilizada pelos jovens para representar o carisma, a presença ou a impressão que alguém provoca nas outras pessoas. A tendência ganhou projeção internacional a partir de manifestações espontâneas difundidas pela internet e, como acontece com muitos fenômenos digitais, recebeu novas interpretações ao chegar a diferentes lugares.

É compreensível que pais, mães e educadores queiram saber onde esses encontros acontecem, quem os organiza, quais atividades serão realizadas e se existem condições adequadas de segurança. Crianças e adolescentes não devem ser deixados sem orientação diante de eventos divulgados exclusivamente pelas redes sociais. Também é legítimo discutir exposição de imagem, proteção de dados, constrangimentos, cyberbullying e a pressão por aprovação pública.

O problema começa quando essas preocupações são utilizadas para classificar toda a manifestação como ridícula, vazia, fútil ou doentia, antes mesmo de se procurar compreender o que ela representa para seus participantes. Uma coisa é avaliar os riscos concretos de determinado encontro. Outra, muito diferente, é transformar uma brincadeira geracional em prova de que os jovens não querem estudar, aprender, trocar experiências ou crescer.

Cada geração encontra sua própria linguagem

De tempos em tempos, surgem danças, estilos, expressões, brincadeiras e formas de convivência que despertam estranhamento nos adultos. Aquilo que faz sentido para uma geração pode parecer incompreensível para outra, principalmente quando envolve referências, palavras e códigos criados em ambientes digitais.

Esse desencontro não é novo. A diferença é que, atualmente, quase tudo pode ser gravado, publicado, compartilhado e submetido imediatamente à aprovação ou à crítica de milhares de pessoas. A internet ampliou a visibilidade das manifestações juvenis, mas também aumentou a disposição dos adultos para observá-las fora de contexto e emitir julgamentos definitivos sobre elas.

Nem toda atividade realizada por crianças e adolescentes precisa apresentar uma finalidade pedagógica claramente identificável. Brincar, rir, dançar, encontrar amigos, criar gestos, experimentar estilos e compartilhar referências também fazem parte da formação humana. Há experiências cujo valor está na convivência, no sentimento de pertencimento e na possibilidade de participar de algo construído coletivamente.

Quando um grupo de jovens se reúne de forma pacífica em um espaço público, pode haver naquele encontro mais do que a busca por uma fotografia ou um vídeo. Pode haver amizade, criatividade, humor, descoberta, liberdade e reconhecimento entre pessoas que compartilham uma mesma linguagem. O fato de os adultos não identificarem imediatamente essa dimensão não significa que ela não exista.

Não é necessário gostar de uma tendência para reconhecer o direito de outras pessoas participarem dela.

Eu não iria, mas isso não me autoriza a desqualificar

Pessoalmente, eu não iria a um encontro para “farmar aura”, porque esse tipo de evento não corresponde aos meus interesses nem à minha geração. Entretanto, minha falta de interesse não pode ser utilizada como medida para determinar o que os adolescentes devem considerar divertido, significativo ou digno de sua atenção.

Também não me parece razoável afirmar que um jovem deixou de valorizar os estudos ou vive uma existência sem propósito simplesmente porque participou de uma tendência. Uma pessoa pode estudar, ler, conviver com a família, cumprir suas responsabilidades e, ao mesmo tempo, divertir-se em um evento que, para muitos adultos, parece estranho. Um momento recreativo não define sozinho a personalidade, os valores ou o futuro de ninguém.

Existe uma tendência recorrente de romantizar as formas de diversão do passado e tratar as manifestações do presente como inferiores. Nesse processo, os adultos se esquecem de que suas próprias escolhas também foram criticadas pelas gerações anteriores. Muitas expressões culturais hoje consideradas legítimas já foram vistas como barulho, rebeldia, perda de tempo ou ameaça aos bons costumes.

Não é necessário gostar de uma tendência para reconhecer o direito de outras pessoas participarem dela. A convivência entre gerações depende justamente da capacidade de estabelecer limites sem exigir que todos possuam os mesmos gostos, comportamentos e referências.

Liberdade não significa ausência de cuidado

Defender o direito de expressão dos jovens não significa ignorar riscos nem aceitar qualquer comportamento em nome da diversão. A liberdade encontra limites quando uma atividade fere, ameaça, humilha, constrange, discrimina ou coloca alguém em perigo. Também deve haver atenção ao uso não autorizado da imagem de terceiros, à ocupação responsável dos espaços públicos e à proteção de crianças e adolescentes contra situações de exposição indevida.

Os responsáveis precisam conhecer as condições do evento, verificar quem está promovendo o encontro, combinar horários, orientar sobre deslocamento e manter canais de comunicação. Quando houver participação de crianças mais novas, a supervisão de adultos torna-se ainda mais importante. Organizadores e autoridades públicas também devem avaliar segurança, acessibilidade, respeito ao espaço utilizado e formas de prevenção de conflitos.

Essas providências, porém, devem partir de riscos objetivos, e não da ideia de que todo comportamento desconhecido representa automaticamente uma ameaça. O acompanhamento familiar pode existir sem humilhação, ironia ou desprezo. Orientar não é ridicularizar, assim como proteger não significa impedir toda experiência que não tenha sido escolhida pelos adultos.

Documentos internacionais de proteção à infância reconhecem que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e possuem liberdade de expressão, inclusive nos ambientes digitais, observados os limites necessários à proteção de outras pessoas e à sua própria segurança. A UNICEF também alerta que uma abordagem concentrada somente nos riscos pode reduzir indevidamente as possibilidades de participação, criatividade e convivência proporcionadas pelas tecnologias. O desafio, portanto, está em equilibrar proteção e autonomia, sem abandonar nenhuma dessas responsabilidades.

O risco de diagnosticar uma geração a partir de uma brincadeira

É preciso ter cautela com afirmações segundo as quais uma tendência estaria “adoecendo a juventude” ou revelando um “grande vazio de propósito”. A saúde emocional de crianças e adolescentes é um tema sério demais para ser explicada por uma única moda das redes sociais. Não se deve transformar uma impressão pessoal em diagnóstico coletivo.

A pressão por reconhecimento, a comparação permanente e a exposição excessiva realmente podem produzir consequências negativas. Esses problemas merecem acompanhamento familiar, educação digital e, quando necessário, apoio profissional. Contudo, eles não surgiram com o “farmar aura” e tampouco podem ser atribuídos indistintamente a todos os seus participantes.

A busca pela aprovação dos outros também não foi criada pelas redes sociais. O desejo de ser aceito, admirado e reconhecido acompanha diferentes fases da vida, embora hoje encontre mecanismos mais rápidos e públicos de manifestação. Em vez de apenas condenar essa busca, famílias e escolas podem ajudar os jovens a compreender a diferença entre reconhecimento saudável e dependência da aprovação digital.

Isso exige diálogo sobre privacidade, permanência dos conteúdos publicados, respeito às diferenças e responsabilidade diante das próprias escolhas. Exige também que os adultos estejam dispostos a ouvir antes de concluir que já entenderam tudo.

O diálogo oferece mais proteção do que o desprezo

Quando os adultos ridicularizam uma expressão juvenil, dificilmente aproximam os adolescentes. O resultado mais provável é o afastamento e a interrupção do diálogo justamente quando a orientação seria necessária. Um jovem que teme ser humilhado por seus interesses tende a esconder informações, enquanto aquele que encontra abertura para conversar pode compartilhar dúvidas, locais, horários e preocupações.

Em vez de perguntar apenas “qual é o propósito disso?”, talvez seja mais produtivo perguntar o que atrai os participantes, como o encontro será organizado e quais cuidados estão sendo adotados. Essas perguntas permitem conhecer o fenômeno e avaliar seus riscos reais sem antecipar uma condenação.

A escola também pode contribuir, não proibindo todas as manifestações surgidas na internet, mas promovendo educação para o uso responsável das redes sociais. Questões como consentimento para gravação, direito à imagem, respeito ao espaço público, identificação de situações perigosas e consequências da exposição digital precisam fazer parte da formação dos estudantes.

A participação juvenil pode ser acompanhada por orientação intergeracional, espaços seguros e regras compreensíveis. Isso oferece mais proteção do que discursos que apresentam os jovens como incapazes de atribuir significado às próprias experiências.

Entre o cuidado e o direito de viver o próprio tempo

Os adultos não precisam aderir a todas as tendências nem fingir que compreendem aquilo que lhes parece estranho. Também podem fazer críticas, estabelecer limites e apontar riscos. O que não parece justo é negar antecipadamente qualquer valor às formas de expressão criadas pelos jovens ou apresentá-las como evidência de fracasso geracional.

Pode haver exagero, exposição desnecessária e busca excessiva por aprovação em alguns desses encontros, assim como pode haver alegria, criatividade, amizade e convivência pacífica. As duas possibilidades precisam ser consideradas. Uma análise responsável não deve romantizar o fenômeno, mas também não deve reduzi-lo aos seus aspectos negativos.

A beleza de determinados momentos pode estar justamente nas conexões que se formam, na paz do encontro, na harmonia entre pessoas diferentes e na liberdade de compartilhar uma experiência que faz sentido naquele tempo e para aquela geração. Mesmo quem não participa pode reconhecer essa dimensão.

O papel dos adultos não é decidir previamente quais manifestações juvenis possuem valor, mas assegurar que elas ocorram com respeito, segurança e responsabilidade. Crianças e adolescentes precisam de proteção, mas também precisam de espaço para construir suas próprias linguagens, experimentar formas de convivência e viver o tempo ao qual pertencem.

REFERÊNCIAS DE APOIO

Direitos, proteção e participação juvenil